7.2.07

Olhar estrangeiro



Manhã de terça-feira. Dessa vez, minha tarefa era encontrar um personagem que guardasse relíquias de carnavais passados. Descobri que a primeira porta-bandeira da Portela, de 87 anos, guarda em sua casa antigas bandeiras, fantasias e fotos. Liguei pra casa dela e fui surpreendido por uma senhora aparentemente lúcida:

- Meu filho, você não sabe de nada, hoje em dia ninguém sabe de nada. As pessoas ficam dizendo que a Mangueira é a maior campeã do Carnaval, que a Portela é de Madureira, mas essas pessoas não sabem de nada. Nada, me entendeu?

Estupefato, fiquei sem palavras para dizer. Embora tenha aprendido que a Portela é de Oswaldo Cruz e não de Madureira, não me arrisquei a contrariá-la. E ela não parava:

- A televisão só quer saber de mostrar a bunda da mulherada, só procuram os velhinhos da Velha Guarda quando a gente tem que se expor, abrir nossa vida, falar de um passado que nunca mais volta, meu filho. Se você quer mesmo saber o que eu tenho na minha casa, me procura no Sambódromo que a gente conversa!

Envergonhado (mas sem perder minha cara-de-pau), resolvi falar alguma coisa:

- Minha senhora, você tá certa, a imprensa não tem respeito por vocês, bambas do samba, mas você tem que entender que nosso interesse é registrar para sempre uma história tão linda como a sua.

Me dei mal. Ela não se conteve:

- Meu filho, com todo o respeito, mas você pode enterrar minha história junto comigo, porque é isso mesmo que vocês fazem quando a gente morre. Fala por um dia, dá uma nota na página de óbitos, faz um especial que passe em todos os Carnavais, e pronto. Você tá me entendendo?
Só pude concordar com suas observações a respeito do meu ofício. Somos mesmo uma corja de punguistas.

2 comentários:

Fred Krueger disse...

Não tô te entendendo.

mãe Joana de Oxossi disse...

Faço agora a minha maior profecia: a Portela entrará na Avenida com uma águia sobrevoando a passarela!