14.4.08

Escolhido um tema, por meio das excitações psíquicas e fisiológicas sabidas, preparar e esperar a chegada do estado de poesia. Se este chega (quantas vezes nunca chegou...), escrever sem coação de espécie alguma tudo o que me chega até a mão - a "sinceridade" do indivíduo. E só em seguida, na calma, o trabalho penoso e lento da arte - a "sinceridade" da obra-de-arte, coletiva e funcional, mil vezes mais importante que o indivíduo.

Mário de Andrade, "O Movimento Modernista", 1942

10.4.08

Ele disse, eu fiquei calado. Merece aplausos fervorosos. Conseguiu arrancar-me um sorriso no momento em que mais temia o choro desprevinido. Surpreendido, deixei-me expirar bons ventos. Creio que sua força, inabominável, me lançará noutros oceanos. Eu, barco à vela, sigo desgovernado; sem leme ou âncora, prossigo como as aves aos ventos e os peixes às correntezas. Incertezas serão validadas por minhas proezas limitadas.

1.4.08

pequenos detalhes

- Não vai me mostrar?
- Tá bom. Eu mostro. Mas rapidinho.

Ela se vira devagar, e, enquanto a observo, vejo o desenho da calcinha fininha marcando a calça.

- Cadê?
- Calma, safadinho, não vai me ajudar?

Piranha. Sempre me provocando. Olho calado ela soltar o laço da calcinha. Branquinha, novinha.

- Senta no meu colo, vem.
- Você me ama?
- Amo.
- Que bom, eu também. É por isso que a gente se dá bem, a gente convive bem.

Só assim ela me convencia de que valia mesmo alguns minutos de conversa.

25.3.08

Discute-se o passado entre os que não vêem o futuro. Crise é não saber o que mudar nem de que modo. Não adianta moldar raciocínios complexos, há muito houve a implosão de sentido, o caos. Hoje, vive-se entre escombros à cata de relíquias iluministas. Injustiça querer a crítica despropositada? Não creio. Cansei-me de argumentações fundadas em palavras reescritas; quero criar o novo, sem constantes referências ao que já não é mais. A cidade é o sonho do labirinto, e minha consciência é infinita.

19.3.08

Adaptei-me à burguesia. Tornei-me convencional.

13.3.08

Mesmo cego, porém, sou sensível
à luz interior de cheiros e vozes
ao toque que eleva ao além
e ao gosto das coisas insaciáveis.
Cada pedaço de vida me transporta
para um lugar que não conheço.
Sentir o invisível é dose.

9.3.08

Todos abandonaram a essência, carcaça pesada que eu carrego em minhas costas, sem medo de possíveis aproveitadores da fraqueza humana. Um dia meu pai disse que, de acordo com o que eu escrevia, eu devia ser triste. Não tenho certeza.

4.3.08

- Quero te dar um abraço! disse, a voz corrompida pela fria emoção das palavras.
- Não dá, cara, não vê que estou dançando? retrucou, rispidamente, incapaz de me olhar nos olhos.

Sigo minha noite sem rumo, certo de que daqui a pouco uma cai na conversa.